domingo, 11 de dezembro de 2011

os belos corpos como maré me inundam e me esvaziam em um tempo tão curto que não cabe contar.
teu corpo torto, teus olhos vivos, intranquilos, tua mente aberta, tua fome de mim e de mundo que não te cabe que me alimenta.
tu, que não sabe se vai ou se fica, e me mata e me agita e me acorrenta no que sinto sem entender.
me larga perdida no mundo, em mim, sem chave, porta, saída ou carta de alforria que eu nunca assinaria simplesmente por querer me manter acorrentada a ti, esperando o momento em que me preenches, um tempo tão curto que não cabe contar.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

de surpresa, o vento levou a carta.
te levou.
ainda te via. perto, mas onde minhas mãos já não alcançavam.

seria um sinal do vento fazer aquele quatro de espadas escapar?
relutei em te trazer pra junto de mim.
talvez fosse a hora de deixar o vento levar tudo embora
você, a carta, as lembranças.
ainda assim levantei e te guardei dentro das páginas de uma história. da minha história, talvez.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

quando você chegou todos os meus problemas sumiram e você se tornou o único.

passo o ponto

Nunca tinha pensado em vender livros. Acho que de tanto viver para eles, acabou por viver deles também. Era com os livros que matava sua fome, do estômago e da fantasia.
Agora eles estavam ali, bem na sua frente, espalhados pelo chão da rua entre os passos dos transeuntes. Não eram mais seus, mas não conseguia afastar-se deles assim tão bruscamente. Como uma mãe que abandona um filho por não ter condições de criá-lo, se acomodou em um canto da lanchonete ao lado e ficou a olhá-los de longe. Algumas pessoas paravam, remexiam um pouco, duvidavam do que viam. Não estavam acostumadas a poder levar livros para casa sem ter que pagar por eles. Que maldição o dinheiro!
Por tanto tempo tivera aquele espaço para vendê-los e nunca as pessoas haviam se interessado tanto pela grande coleção que tinha reunido ali. Existia uma barreira toda construída em cédulas e moedas das mais diversas cores e tamanhos que impediam os possíveis leitores de entrarem em uma outra dimensão, onde era possível encontrar respostas para muitas questões ou simplesmente perder-se nelas. Era com um misto de felicidade e melancolia que assistia aquele espetáculo mórbido. Podia passar o dia todo ali, mas tempo é dinheiro (novamente ele)! No dia seguinte, desviou seu caminho para visitar de longe seus livros novamente, mas ao chegar tudo que viu foi uma calçada vazia e a imensa e incômoda placa: passo o ponto.

domingo, 30 de outubro de 2011

preciso me encontrar.
no caminho vou desenhando mapas, colocando placas para que você me encontre também.
estou perdida. acho que esse é um dos motivos que fez nós nos perdermos um do outro.
não me sinto bem comigo, alguma coisa dentro de mim me diz que estou no caminho errado.
sinto que estou perdendo tempo com bobagens. atitudes erradas, pessoas erradas, escolhas erradas.
nunca me senti tão pouco eu. parece que alguém se apoderou do meu corpo e levou meu eu embora.
preciso me encontrar.
onde será que estou? talvez no lugar onde eu quisesse estar, aí bem perto de você, te abraçando e você nem vê.
enquanto isso esse alguém está morando nos meus braços, pernas, boca e palavras que se atropelam e me atrapalham no caminho de volta.
esse alguém é sem graça, inconveniente e incômodo e sinto que as pessoas pensam isso de mim, mas essa não sou eu. dá vontade de gritar: "EI, ESSA NÃO SOU EU! NÃO DÊ ATENÇÃO AO QUE DIGO!"
ou talvez seja. e é isso que me deprime.
será que sempre fui assim e só agora percebi isso e comecei a me incomodar?
se é isso, quero desesperadamente mudar! quero inventar outro caminho. talvez precise de outro caminho, talvez precise que você não me siga.
queimo as placas, rasgo o mapa. volto ao ponto inicial.
preciso me perder.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

domingo, 2 de outubro de 2011

minha face oculta de lua

lua nova, um sorriso reluzente.
é noite de céu limpo.
posso ver o contorno de sua face oculta.
acho que só percebe quem sabe como é sorrir por fora dissimulando escuridão.
anseio pela lua cheia de completa clareza pacífica, mas passo por todas as fases.
minha face oculta é de lua.

domingo, 18 de setembro de 2011

Sempre quis ser tranquila.
Acho fantástico pessoas que não se estressam com nada, falam baixo e andam devagarinho.
Às vezes tinha até a impressão de que a minha intranquilidade incomodava não só a mim mas também as outras pessoas, em momentos de euforia, tanto positiva quanto negativa.
Muitas vezes, ao sair de casa, pensava: "hoje vou ficar na minha, tranquila, falar pouco, baixo."
Nunca durou muito. O contato com as pessoas, com o mundo, a inserção nas relações nunca me permitiu esse tipo de reação. Descobri que eu sou a intensidade com que lido com as coisas e isso deixou de ser um defeito, virou identidade. O chorar, de tristeza ou alegria, sou eu. A voz exaltada na empolgação, todo amor que não cabe em mim, a revolta com o mundo que dói o coração e o estômago. Descobri ainda que isso não me torna intranquila, minha tranquilidade vem justamente de saber-me e aceitar-me. A loucura, a constante sensação de incompletude, confusão, caos, intensas sensações nunca poderiam ser expressas em voz serena e passos lentos. Explodiria o eu descompassado.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

esconde-esconde lunar

chegou tão perto que quase tropeço.
entrei na condução e ela, um pouco mais distante dessa vez, veio atrás.
ia na mesma velocidade que o trem, não sei quem conduzia quem.
ahh certamente era ela, com sua luz prateada na janela.
por vezes escondida atrás das árvores, como se me espiasse.
logo depois vinha toda toda, escancarada no céu da cidade.
como que para brincar comigo, que ansiava por admirá-la, se escondia atrás dos prédios e viadutos.
chegava bem perto das casas do topo do morro, como se desejasse compensar tanta desigualdade com a sua presença embalando o sono dos que cedo madrugam.
e quando eu pensava quase poder tocá-la, fui raptada por um túnel, que levou para longe meus pensamentos, para bem além do mundo da lua.

domingo, 4 de setembro de 2011

que belo par!
deveriam casar, o sentir e o pensar.
mas vivem brigando, "essa vida é pequena pra nós dois!"
se juntar, cabe. a plenitude está à distância de um abraço.

sábado, 3 de setembro de 2011

o que é que há?
saudade não é.
amor não é.
tristeza não é.
é pedra no peito, é sentimento não identificado com radar
quando te vê, acorda daquele sono profundo.
passa pela mão que sua, pelo braço que arrepia, pelo coração que bate forte.
todos os órgãos, revoltados, exigem da mente uma solução lógica, racional!
infelizmente, ela nada pode fazer.
fecha os olhos, os ouvidos, se fecha. mas ele está lá dentro e se fechar só impede ele de sair.
"com o tempo passa", ouviu. mas só o que passa é o tempo.


sábado, 27 de agosto de 2011

fora de mim

Não sei se escrevo na primeira ou na terceira pessoa.
O eu parece de fora, como se eu olhasse pra mim de um ponto distante.
Tudo começou ontem. Na verdade, acho que começou a mais tempo, mas ontem o estranhamento beirou o descontrole. Levantei da cadeira do bar, ainda eu, para ir ao banheiro. Ao me olhar no espelho, não me reconheci. Mudei a expressão facial diversas vezes para ver se a sensação de estranhamento se amenizava, mas ela não passou. Resolvi, por aquele momento pelo menos, deixar esse pensamento de lado e voltar à mesa. Durante o tempo passado no banheiro bateu um certo desespero de não conseguir mais voltar pra dentro de mim. No restante da noite a sensação passou, mas hoje voltei a pensar nisso. Sempre me incomodou a sensação de não ser espontânea para mim mesma. Parece que meu eu, pra mim, está sempre sob controle. Esse controle que me parece sempre a imagem que realmente quero passar e não o que realmente sou, se é que existe um realmente ser. Então, naquele breve momento no banheiro, não reconheci a pessoa do espelho. Pessoa que deveria ser, pra mim, a mais íntima de todas. Seria eu ou o eu dos outros? Aí passo a problematizar a próxima questão: como me entregar as pessoas se nem eu mesma sei lidar comigo? Talvez precise passar por uma longa jornada de auto-conhecimento.

sábado, 6 de agosto de 2011

de olhos fechados

as mãos passam pelo corpo,
acariciam o rosto com carinho,
compartilham-se abraços,
os olhos sempre fechados.
materialmente não falta nada.
está tudo ali, mas os olhos insistem em continuar fechados.
para tudo existir tem que ser assim: cego.
se os olhos da verdade tão difícil de ver se abrem
para onde você foi? tudo desmorona.
e mãos não passam de dedos
e abraços não passam de braços entrelaçados como numa luta contra a realidade.
mais difícil do que estar só é não estar contigo.
não dá mais. você não vai mais voltar a ocupar o espaço que deixou e ninguém consegue preenchê-lo.
a doença é crônica, mas não terminal.
pode-se viver a vida toda com ela e apenas em alguns momentos lembrar de sua existência.
ainda estou na fase um: a descoberta. ainda sofro com o impacto da percepção de que tenho um buraco enorme no peito e que terei que conviver com ele para sempre. dessa forma, penso nele frequentemente.
não tem cura, mas o tratamento pode ajudar a reduzir consideravelmente seu tamanho.
uma boa dose de tempo para começar.

domingo, 31 de julho de 2011

amor meu, em curtas e grossas palavras, ou é inveja ou é carência.
e os insetos-humanos sempre pequenos, sempre perdidos.
seja na vastidão do mundo afora ou na imensidão de seu universo interior.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Você me aleijou, me tirou as pernas. Aos poucos foi arrancando cada pedacinho para que eu não corresse mais atrás de ti. Logo você que me presenteou com elas. Eu não soube aproveitá-las, corri demais. Quando corre demais escangalha. Se você também corresse e ficasse mais perto talvez evitasse tanto esforço em vão. Eu parei de cá, você não se moveu daí e agora te perdi de vista. Passou tanto tempo que às vezes fico pensando se você existe mesmo. Às vezes me esqueço do teu rosto, do teu jeito de mover as mãos enquanto fala e me vem um vazio. Como se todo aquele sentimento que eu cultivava em mim rompesse coração afora e se perdesse, sem encontrar o caminho certeiro para o seu e ficasse vagando pelo tempo. Deixou um rombo. Um poço profundo de onde nada se extrai. E tentar preenchê-lo é como tapar um buraco com areia em meio ao vento. Qualquer brisa e o espaço vazio se faz de novo presente. Às vezes sinto que transformo tudo em areia só pra deixar esse espaço, mesmo tendo aquela certeza no fundo de mim que diz que você não vai voltar. Não dá para voltar para onde nunca se esteve. Você não esteve aqui. Você não existe. 

terça-feira, 19 de julho de 2011

Essa mentira de perna curta cresceu ou colocou perna-de-pau. Cresceu junto com você.
Não é mais aquela descompromissada, sobre vasos quebrados ou notas vermelhas no boletim. Está correndo rápido, ganhando o mundo e quando vê, não tem mais volta.
Perdeu-se no ar. Espalhou-se por todo o canto e contagiou todos como uma epidemia.
Ela ganhou vida. Não vida própria, ela tomou a sua. Parasita. Só vive porque você a sustenta.
Dá-te prazer ou desespero ter essa sanguessuga nas entranhas?
Ela te deformou. E foi vagarosa e contundente ao apodrecer cada uma de suas relações.
Você vai se deteriorar até virar merda. E ela vai sobreviver, devorando as outras vidas que você contaminou com o que parecia apenas inofensivas palavras.  

terça-feira, 12 de julho de 2011

Aquelas folhas verdes me chamaram a atenção.
Quando passo, me fitam com saudosos olhos enrugados.
O verde ficou velho, meio amarelado pelo tempo.
O tempo corria na mesma velocidade da bicicleta rosa, tão miúda, que há muito tempo deixou de correr. Mas o tempo não parou. E engoliu não só as folhas da árvore, mas muitos pensamentos.
Alguns foram de mais fácil digestão. Outros, acho que ficarão ainda por um bom tempo circulando no sangue dos vasos que irrigam a mente.
Ó vasos, por que não me agraciam só com flores?
Por que não me lembro de anos inteiros e frações de segundo não me saem da cabeça?
Que peso tem as palavras e o insuperável ruído da comunicação.
Palavras de toneladas viram plumas ao chegar a outros ouvidos. Outras mais leves que o ar perfuram almas como meteoros na terra.
Me enlouquecem!
Se deixa a cabeça solta pode-se até mergulhar nas ondas sonoras que avançam levando cada pequena sílaba no seu embalo hipnótico e que chegam à beira da mente do outro. Mas mesmo com toda a destreza rítmica das ondas, se embaralham quando quebram em seu destino. E voltam desordenadas. Causando um vaivém eterno de incompreensão.
Ah, que torre de babel seria conviver se as ondas só carregassem palavras. 

domingo, 3 de julho de 2011

Labirinto de mim

Abri a porta da minha mente e descobri um labirinto. Entrei e agora não sei se algum dia vou conseguir sair. Sabia dessa possibilidade e ainda assim escolhi entrar. Um medo enorme me consome de ficar perdida para sempre, justamente por causa dos milhares de caminhos diferentes que não sei onde dão. Ao invés de pensar mais, tendo a seguir meus instintos e entrar no que sinto que é certo. Às vezes funciona, às vezes só me deixa mais perdida. Não sei se estou perto ou longe porque também não sei, na verdade, onde realmente quero chegar. Achava que dentro de mim era o lugar mais seguro onde poderia estar, mas acho que me enganei.

Metamorfose

Virou bicho. Andava pelo meio da mata e se achou tão pertencente a aquele lugar que, de repente, seus braços e pernas viraram patas. Ganhou asas. Ahh, as asas. De passarinho, de borboleta. “E os humanos se acham tão especiais!” – pensou. Pela primeira vez se viu em um mundo onde podia ver a existência caminhando livremente para fora do seu próprio eu e sendo compartilhada com os outros. Isso era feito por todos. Cada um dava a sua existência aos demais formando um enorme emaranhado de “eus”, onde eu já não mais existia. Todos se embrenhavam pelos nós. Nós era o que havia.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Realidade incorpórea.
Sombra por trás dos elementos da causa.
A sombra disforme, amórfica
Querer interpretar só deixa a sombra mais diferente dos elementos da causa.
Quero dormir para ver de novo, quem sabe com mais detalhes, mas nunca é igual.
Quero compartilhar, mas não dá para ver porque está tudo interligado pela minha engrenagem corpórea.
É ela que me leva até a realidade incorpórea da mente.
Mente é corpo e não é. É além.
Às vezes parece independente de mim.
É outro eu, com elementos do eu corpóreo totalmente recodificados.
Brinca com sorvetes, copos, jogos da memória, pessoas só para me confundir, me enlouquecer, me matar de curiosidade.
O que é você que está aí escondido dentro da minha cabeça?
Para onde você vai quando o corpo acaba?
A curiosidade da morte é sedutora.
Eu acredito no amor,
mas enquanto ele não vem
brinco de amar de mentirinha.
Invento sofrimento, empolgação
E até o bater do coração.
É um bom teatro
até que a cortina se fecha
e a roupa de amor de verdade cai pelo chão.
Sai a maquiagem,
o ator se confunde com o personagem,
me confunde.
Fico sem saber
o que é amor e o que é realidade.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Levantou muito irritada. O barulho era tão alto que interrompeu seu sono. Abriu com força a porta do quarto, pronta para soltar os cachorros no primeiro outro que visse e começou a andar pela casa. Na sala, não viu ninguém. No quarto dos pais, ninguém. Cozinha, nem um pio. Todos tinham saído, menos o barulho. Pensou que podiam ser os vizinhos. Foi olhando as janelas: escuras. Descendo as escadas e nada. De repente, todos tinham sumido. O barulho sempre a incomodou, todos os dias. Achava que ele era dos outros e por essa razão nunca lhe deu a devida atenção. Mas não havia ninguém e o barulho estava cada vez mais alto. Pensava antes que, quando ficasse sozinha, ficaria em silêncio, em paz. Mas aconteceu justamente o oposto. Foi quando se viu totalmente só que pode perceber que o barulho vinha de dentro dela. O que a incomodava não estava nos pais, nos vizinhos, na carreata passando na rua, estava bem ali, dentro do seu peito. Esse barulho de dentro é diferente. Não se ouve só com ouvidos, é preciso mais atenção para entender de onde vem e a que veio. Como alcançar o silêncio? Era preciso ouvir o barulho dos outros. Sim, ele não é exclusividade sua. Todo mundo tem barulho interno, é natural do ser humano, por mais que alguns, inclusive ela própria, tenha problemas com essa idéia de natureza humana. Ele vem junto com a consciência, de brinde. É preciso senti-lo, saber compreendê-lo porque somente assim, juntos, nessa harmônica sinfonia de barulhos, podem ficar todos em silêncio e, finalmente, em paz. 

ombreiras

Depois de muito postergar, resolveu arrumar seu armário. Que bagunça! Doía os olhos. Mais ainda, doía a cabeça. Sempre fora uma pessoa desorganizada, preferia assim a viver de forma meticulosamente ordenada. Mas às vezes é preciso tirar tudo do lugar, mudar tudo de lugar, se transportar para outro lugar. Separou tudo que não servia mais para se desfazer. De repente percebeu que podia se desfazer de tudo aquilo. Lógico, existiam algumas coisas mais especiais, mas que eram impossíveis de usar. Era preciso se desfazer dessas também. O que dificultava o processo era saber o quanto é difícil achar roupas, sapatos, pessoas que encaixem tão bem. Podia guardá-las e de ano em ano experimentá-las para ver se voltavam a caber, lembrando dos momentos incríveis e especiais em que estava com ela. Se sentiria bem por uns instantes e logo voltariam a ocupar o canto, ou praticamente metade, do armário. Dessa vez achava melhor abrir espaço para novas lembranças. Depois de ver tudo espalhado pelo chão, pela cama, cadeira, cabeça viu quanto trabalho daria arrumar sua vida. Um amigo riu e lhe disse: “tem bagunças que é melhor não mexer.” Talvez. Mas é bom mudar o armário de vez em quando, para não ficar ultrapassada. E, apesar de tudo, guardar certas peças bem dobradinhas, no fundo da gaveta, com a esperança de, cedo ou tarde, voltarem à tendência.

sábado, 25 de junho de 2011

Há uns meses apareceu por aqui uma visitante. Nunca vou esquecer o dia que ela chegou. Desde então, sempre que acordo ela está por perto. Quando toca Frejat ou Jorge Ben ela canta com maestria. No bar, ela ocupa sua cadeira. Senta ao meu lado na sala de aula.  Mas nada diz, não interage. Sua presença me incomoda. Às vezes me distraio e ela some por uns instantes, mas logo reaparece. Ela é a sua falta. Vistante inconveniente. Espaçosa  demais. Me trouxe um agrado, um presente muito especial, para que fosse mais fácil aceitar sua presença. Um sorriso enorme, um abraço caloroso e o mais alto astral que já vi. É a lembrança que tenho de você, amigo querido. Essa visitante veio sem data de partida. Tudo que posso fazer é aprender a conviver com ela.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

transmigração corrente

Toma banho na água que corre. A água corre e bota tudo pra correr.  O sol esquenta meu corpo enquanto o não-silêncio da natureza me embala quando fecho os olhos. Como transmitir essa energia? Voz, ruído. Não. Telepatia. Como se por um momento minha mente entrasse na sua, você vestisse minha pele, colocasse meus olhos, meus ouvidos, encaixasse meu coração no seu peito e pudesse, só assim, entender o que não dá para explicar. 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

tac tic (se automatizar, a ideia se perde)

Não me reprime com esse olhar,
seu certo e errado é errado para mim.
Quem disse que não? Por que não?
Quero dormir até mais tarde, beber até mais tarde, transar até bem cedo, cedinho.
As coisas não têm hora, teimosia é querer dar hora a elas! E hora errada! Tem que acertar esse relógio.
Cinco minutos é muito mais do que horas.
Meu tempo conta diferente. Não conta em horaminutosegundo.
 Meu tempo não é questão de tempo. 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Reflexões de um eu pós-moderno (parte I)

Picava cebolas para fazer o almoço. Chorava. Mas o choro não era por causa das cebolas ou qualquer irritação nos olhos. Era irritação, mas de outro tipo.
Por que não conseguia escapar de tudo aquilo? Precisava de ajuda. De um sequestro. Precisava que alguém fizesse por ela o que não conseguia fazer sozinha. Mas não podia ser qualquer alguém, tinha que ser um alguém específico. Deveria fugir com ela e ficar, sem largá-la em qualquer beira de estrada quando o primeiro quebra-molas aparecesse. Pensando mais a fundo, chegou à conclusão que cedo ou tarde ficaria sozinha. Tinha que jogar as muletas para o alto, só assim descobriria o potencial de suas próprias pernas. Não podia esperar mais. Esperar só atrasaria o inevitável. Uns diziam que era crise psicológica, da pós-modernidade. Honestamente, a classificação era o de menos.